Ilustração conceitual para a Resenha O Discurso de Ódio, mostrando um perfil humano que se fragmenta para simbolizar a tese do auto-ódio de André Glucksmann.

Resenha de “O Discurso de Ódio”: A Análise de André Glucksmann Sobre a Força Destrutiva do Nosso Tempo

Resenha

Dr. Eduardo Alves Neto

GLUCKSMANN, André. O discurso de ódio. Tradução de Edvard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: DIFEL, 2007.

Iniciamos esta resenha a partir da contextualização do autor, obra e sociedade a qual ele se inseriu durante a produção da obra “O discurso de ódio”. Sendo assim, André Glucksmann, foi um filósofo francês, filho de pais judeus perseguidos pelo nazismo, sua cosmovisão está intimamente ligada às consequências políticas de uma Europa pós segunda guerra.  E dessa forma, são aspectos que modelam a sua filosofia política, principalmente o seu principal viés crítico de sistemas totalitaristas, violências e dos mecanismos ideológicos que sustentam discursos de ódio e intolerância.

Nascido em 1937, Glucksman é marcado pelo holocausto, mas também pela guerra fria e consequentemente pela bipolarização geopolítica antagônica entre o bloco ocidental capitalista e o bloco soviético. Desse modo, sua trajetória configura-se como um dos nouveaux philosophes ¹, reflete um rompimento com o doxa epistêmico marxista, pois, estes entendiam como ideologicamente coniventes com formas de opressões. 

¹ Grupo de intelectuais franceses que surgiu nos anos de 1970 e tem como característica principal a ruptura com o marxismo e o maoísmo com o objetivo de aproximar-se do liberalismo e da defesa dos direitos humanos. Além de Glucksmann, compuseram essa corrente Bernard-Henri Lévy, Christian Jambet, Guy Lardreau e Jean-Paul Dollé.

É nesta seara que publica-se em 2004, “O discurso de ódio” como obra emergente de um processo de desconfiança da noção de “aldeia global”² (Marshall McLuhan), ou seja, a globalização encarava seus primeiros antagonismos do século XXI, marcas do impacto geopolítico dos atentados ao WTC em setembro de 2001 em Nova York.

Visto que, nesse sentido Glucksmann analisa como “ódio”  como algo dado estruturalmente, não sendo portanto apenas de gênese emocional ou irracional, mas sobretudo, como algo dado estruturalmente e potencializado pelos processos de globalização midiática dos discursos que justificam e de forma racional e moderna a violência e a exclusão do outro. 

É importante destacar que a obra aqui analisada é o produto síntese de um movimento histórico (recente) das intensificações de conflitos globais, como as guerras que ocorrem até os dias atuais no Oriente médio, tal qual, alimentada com a consolidação de movimentos extremistas, que alimentam teóricas de intolerâncias, estabelecidas dialeticamente entre o lócus e o global.

Nesse sentido, penso que a gênese dialética do “ódio” é retroalimentada entre as condições de estranhamento e exclusão que surgiram como contradições da reprodução do capital globalizado que engendra no outro a expiação dos próprios pecados. Isto é um dos temas centrais abordados por Glucksmann; O ódio ao outro, é o reflexo do ódio em si. E neste aspecto, apontado pelo autor nas dimensões do e no Antisemitismo, Antiamericanismo e na Misoginia.

É importante destacar que a sociedade em que Glucksmann pensou o “O discurso de ódio” esteve imersa em debates sobre globalização e multiculturalismo. Assim como, a França estava marcada pelo tensionamento que se estabelece internamente por consequência dos fluxos migratórios em face aos processos de assimilação, integração e ações de movimentos nacionalistas. Portanto, os elementos que formam o tecido social da obra que busca não apenas fazer uma cartografia do ódio, mas principalmente refletir sobre quais são as estruturas que sustentam, sejam estas políticas, culturais e midiáticas. 

Glucksmann estruturou o livro em sete partes, principais, pois cada uma pode ser lida separadamente pois trazem uma problemática autônoma, porém, com a capacidade de ter um tema central como fio condutor. Por isso, o problema central do livro é a análise da existência e da natureza autônoma do ódio como uma paixão destrutiva fundamental, que se manifesta independentemente de causas externas e frequentemente como um reflexo do auto-ódio. O autor traz o argumento de que o ódio não é apenas uma resposta às assimetrias de poder, identidades, culturas… mas é o produto de uma vontade de destruir pela destruição.

Nesse sentido, as teses que são apresentadas nas seções, direcionam que o ódio existe e é universal, que opera em uma escala individual quanto numa escala coletiva. E que as razões para o exercício do ódio são “circunstâncias favoráveis”, visto que é a “paixão” pelo ódio de agredir ou aniquilar que se utiliza das justificativas fáceis. Dessa maneira, o ódio é “arbitrário” e não conhece limites ou razões. Para o autor, o ódio acusa sem saber, julgar sem ouvir, condena pelas próprias regras, e portanto “Eu odeio, logo existo”.

“O discurso de ódio” é uma obra que desmistifica a ideia de que o ódio é uma simples reação, propondo-o como uma força endógena e que geralmente tem origem no auto-ódio e parte da condição humana, Glucksman posiciona suas teses a partir do fenômeno das “Bombas humanas” e do terrorismo global, mas desconsidera as contradições de reprodução do ódio como elemento relacional, principalmente ao analisar por um prismo único ocidental e liberal. 

Da Bomba H à Bomba Humana

O problema central “Da Bomba H à Bomba Humana”,  para o autor é a transição da ameaça de uma aniquilação nuclear, controlada por potências geopolíticas para às ameaças das “bombas” humanas, ou seja, do terrorismo individual, porém globalizado.

Para o autor, o ódio é como uma paixão intrínseca e autônoma que se baseia na vontade de “destruir pela destruição” e nesse sentido a capacidade destrutiva em violência em massa e indiscriminada não é mais monopólio das potências, mas agora pulverizada no alcance dos indivíduos.

Para Glucksman, é a “questão do ódio” o problema filosófico prioritário no século XXI, assim, para o autor, o terrorismo contemporâneto visa anestesiar as mentes dos que sobrevivem, cujo o objetivo é paralizar a reflexão.

No Ateliê (oficina) das Bombas Humanas

No Ateliê (oficina) das Bombas Humanas, o problema central se dá a partir das explicações psicológicas, sociológicas e econômicas que reduzem o terrorismo, aliás, ao terrorista (indivíduo) a um “louco” ou até mesmo “vítima”, que resulta a sua negação da agência reflexiva. Dessa forma, o autor introduz o conceito de “bomba humana” como esse ser posto em um patamar inferior, com contexto complexo, que socializa-se por uma lógica destrutiva e autodestrutiva, tal qual as tragédias gregas e romanas. (Ajax, Medeia, Atreu)².

Sendo portanto, a paixão pela destruição, desenvolvida em três fases; Dor, uma fase de auto tormento e autoflagelação, em que o indivíduo se despoja de sua identidade e se nutre da própria dor, convertendo-a em ódio. Fúria, essa dor projetada do interior em direção a comunidade exterior para a aniquilação do outro. Nefas, profanação universal, o estágio final, o terrorista encontra prazer na destruição total, inclusive na autodestruição. 

² As tragédias gregas de Ajax, Medeia e Atreu exploram, em sua essência, a queda do herói e a natureza destrutiva da vingança. Em “Ajax”, vemos a ruína de um guerreiro que, humilhado ao ser preterido na disputa pela armadura de Aquiles, mata um rebanho de ovelhas em sua fúria e, ao recobrar a sanidade, comete suicídio para preservar sua honra. Em “Medeia”, a tragédia atinge seu ápice na vingança de uma feiticeira contra o marido que a abandonou, culminando na fria decisão de matar os próprios filhos para causar o máximo de sofrimento a ele. Já em “Atreu”, a trama é um conto de rivalidade fraternal e canibalismo, onde a vingança se manifesta de forma brutal quando um irmão engana o outro para que ele devore seus próprios filhos, amaldiçoando, assim, sua linhagem.

Por que os cabeleireiros?

Por que os cabeleireiros? centra-se na arbitrariedade do ódio, a qual, escolhe suas vítimas sem motivo lógico, o autor explora a persistência do antissementismo sob novas roupagens, o ódio nesse caso traveste-se de anti sionismo.

Na obra, o antissementismo é visto fundamentalmente como um ódio de si (haine de soi) projetada no judeu, nesta pespectiva o judeu é “alter ego” que reflete as angustias e as incertezas do Estado nação, de modo que, o ódio na questão judaica, não é sobre judeus, mas si sobre os problemas não resolvidos daqueles que os odeia.

Ao problematizar com a questão palestina, Glucksmann infere (sem vigilância epistêmica ou axiológica) que o “terrorismo palestino” é um terrorismo visto pela comunidade global como uma ação aplaudida e até mesmo comemorada ou desculpada, pois, na sua visão, quando o alvo é judeu, parte da opinião pública retroalimenta o ódio por uma legitimação do sofrimento judeu. 

O espectro do hiper-poderoso

Em  O espectro do hiper-poderoso, o autor segue a lógica anterior para problematizar a aversão global aos Estados Unidos (sem desconsiderar novamente o prisma relacional), numa defesa que considera o antiamericanismo como irracional, hipócrita e baseada na própria negação européia, como um ódio a si, versão européia.

A tese aponta que o velho continente projeta nos americanos suas próprias falhas de um passado imperialista, em que recriminam-se ou preferem esquecer. Nesse sentido, a Europa encontra o conforto no antiamericanismo, refletindo uma imagem de “superior” e “pós-histórica”.

Cherchez la femme

Cherchez la femme, Procure a mulher! Centraliza-se na construção histórica da misoginia, para o autor, é um dos tipos de ódio mais antigos e manifesta-se sobretudo sobre o controle da mente e dos corpos femininos. O ódio em si concretizado na misoginia é a última instância  da própria vulnerabilidade humana, especialmente pela replicabilidade da dominação masculina, na recusa de aceitar, como por exemplo na questão das mulheres afegãs.

Olá, senhor Montaigne

 Olá, senhor Montaigne!³ (Humanismo e ceticismo) Compreende a inadequação de velhas categorias de guerra, tal qual a guerra Estado – Estado, para a fixação de uma nova ordem do ódio, ou estado de ódio, global e irrestrito, em que o campo de disputa não se dá mais pelo território mas pela mentes aterrorizadas pelo terrorismo global.

O terrorismo moderno, não tem como objetivo convencer, mas paralizar pelo medo, o medo agora é efêmero e contingencial, logo o medo se torna arma de manipular massas e como consequência enfraquecer ou derrubar governos.

Montaigne oferece a Glucksmann uma perspectiva cética e realista sobre o ódio como uma força intrínseca e autodestrutiva, que se disfarça de nobres causas e transcende fronteiras e eras, e aponta para a necessidade de aceitar a condição humana limitada como o primeiro passo para resistir a essa paixão mortífera

³ A partir de Montaigne, Glucksmann sugere que a saída do estado de ódio não vem de uma imposição de unanimidade (política ou teológica), mas de um “entendimento mínimo” e de “pactos de amizade” entre partes divididas. Isso significa priorizar a sobrevivência e os “interesses terrestres” sobre as “querelas insolúveis”

Para entender como a própria verdade se tornou a primeira vítima nesse conflito, é essencial ler nossa análise em A Verdade Sitiada: Desinformação, Direito e Democracia na Era Digital.

As Sete Flores, O discurso de Ódio: Síntese da Resenha

Por fim, apresenta-se As sete flores do ódio, com o problema central de que a persistência e as múltiplas facetas do ódio na humanidade, apesar das tentativas de negá-lo ou justificá-lo. Assim, Glucksmann sintetiza as características do ódio, e demonstra sua capacidade destrutiva:

  • O ódio existe e é puro: Apesar das negações, é uma paixão de destruir pela destruição.
  • O ódio se disfarça de ternura: Justifica-se por pretensas “boas intenções” como compaixão, paz ou glória.
  • O ódio é insaciável: Exige o impossível de suas vítimas (a mulher perfeita, o judeu “normalizado”, a América infalível), garantindo sua continuidade.
  • O ódio promete o paraíso: Nele se busca a superação da finitude humana, recusando a separação entre sexos, línguas, mortais e imortais.
  • O ódio se crê Deus criador: Através da destruição do outro (mulher, judeu, americano), o hater se sente divinizado e no controle do mundo.
  • O ódio ama até a morte: Ele exige o “suicídio” de seu objeto odiado, forçando-o a desaparecer ou se aniquilar.
  • O ódio se nutre de sua própria devoração: A aversão ao outro reflete o auto-ódio, uma incapacidade de aceitar a própria condição mortal, levando a uma espiral autodestrutiva. A conclusão final é um chamado à lucidez: não se deve odiar o ódio, mas combatê-lo com inteligência, aceitando as próprias limitações humanas e rindo do ridículo de sua pretensão divina.

Em O Discurso de Ódio, André Glucksmann oferece uma análise profunda e provocadora sobre a natureza autônoma e destrutiva do ódio, desmistificando sua percepção como mera reação circunstancial e revelando-o como uma força endógena, alimentada pelo auto-ódio e amplificada por estruturas políticas, culturais e midiáticas.

Ao traçar paralelos entre fenômenos como o antissemitismo, o antiamericanismo e a misoginia, e ao dialogar com o ceticismo humanista de Montaigne, Glucksmann propõe uma reflexão urgente sobre a universalidade e a arbitrariedade do ódio, que transcende fronteiras e eras.

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